Vinícius D. Freitas


Vinícius D. Freitas (@24viniciusdfreitasaj) 31 anos, solteiro, é muito mais do que um belo dançarino que brilha nos palcos de navios de cruzeiro. Por trás do sorriso fácil e do corpo esculpido pela disciplina, existe uma história de descobertas, renúncias e amadurecimento. Nesta entrevista, ele fala sobre saudade, propósito, bastidores da vida a bordo e os planos que já começam a ganhar forma no horizonte.

Entre o calor brasileiro e a imensidão do oceano, Vinícius revela como transformou medo em palco, disciplina em estilo de vida e o mar em casa — sem perder de vista o desejo de, um dia, ancorar em terra firme.

- Dizem que trabalhar em navio é como mudar de planeta. O que foi mais difícil na sua adaptação à vida a bordo: o balanço do mar, a saudade de casa ou dividir cabine?

Trabalhar a bordo é, sem dúvida, como mudar de planeta. É entrar em uma realidade completamente diferente da vida em terra. Os horários, as responsabilidades, a rotina — tudo muda. Durante nove meses, sua missão é simples e intensa ao mesmo tempo: estar no mesmo lugar, na mesma hora, todos os dias, independentemente de como você esteja se sentindo.

O retorno financeiro compensa, mas o esforço emocional e físico é muito maior do que muita gente imagina. A disciplina é constante. A cobrança também.

Mas, para mim, o mais difícil sempre foi a saudade do Brasil. Antes de trabalhar em navio, eu já tinha vivido experiências em hotéis de diferentes países. Já estava acostumado a conviver com culturas diversas. Ainda assim, estar longe de casa por tanto tempo faz você enxergar tudo de outra forma. Faz você valorizar detalhes que antes pareciam comuns.

A nossa comida. O nosso jeito de se vestir. O cuidado com a higiene. A nossa educação. E, principalmente, o nosso calor humano.

O calor brasileiro não existe em qualquer lugar do mundo — e é só quando estamos longe que entendemos o tamanho e a importância disso dentro de nós.


- Depois de quantos “anos de mar” você percebeu que já não era mais turista da própria rotina e virou oficialmente um cidadão dos oceanos?

Acho que ninguém nunca me fez essa pergunta. Mas, pensando bem, eu sempre me senti um cidadão do mar — mesmo não tendo nascido em uma cidade litorânea. Desde criança, as poucas idas à praia com a minha família se tornaram algumas das melhores lembranças da minha vida.

Não foi uma questão de “anos de mar”, mas de conexão. Desde que comecei a trabalhar perto do oceano, percebi que aquilo já fazia parte de mim.

Todos os dias, pela manhã, tiro alguns minutos para olhar o horizonte e agradecer a Deus e ao universo. É o meu pequeno ritual — o momento em que eu lembro que o mar não é só onde eu trabalho, é onde eu me sinto em casa.

-Todo artista tem uma boa história de bastidores. A sua ida para o navio foi um sonho de infância, uma oportunidade inesperada ou um daqueles acasos que mudam tudo?

A minha história é o oposto de muitas outras. Meu sonho de infância não era ser artista — era ter um trabalho que pagasse bem e fosse de segunda a sexta. Eu queria segurança. Estabilidade. Mas, aos 17 anos, tudo começou a mudar. Meu pai é músico e não conseguia entender como eu me recusava a seguir o caminho artístico.

A verdade é que eu amava cantar. Amava fazer teatro. Amava dançar na escola. O palco sempre fez meu coração bater mais forte. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha medo. Não acreditava que existisse espaço para mim no mercado artístico. Achava que sonhar alto demais poderia me frustrar. 

Um dia, meu pai me disse: “Antes de você escolher o seu caminho, eu preciso te levar a alguns lugares.”E foi assim que comecei a assistir a um musical aqui, outro ali… até que ele me levou para fazer um cruzeiro, com a intenção de me mostrar o universo artístico a bordo.

Na primeira noite do cruzeiro, no meio do show, algo mudou dentro de mim. Eu olhei para o meu pai, com os olhos brilhando, e disse:

“Eu vou trabalhar aqui.” Doze anos depois… aqui estou eu.

- Sendo um rapaz bonito em um ambiente cheio de gente de férias, como é lidar com a pegação e as investidas a bordo? Mais divertido, mais constrangedor ou rende boas histórias?

A vida a bordo, para quem deseja curtir, conhecer gente nova e viver experiências diferentes, é o lugar certo. Por outro lado, se o sonho é construir algo sólido com alguém, pode ser um ambiente bem complexo. Às vezes você acha que encontrou o amor da sua vida… mas a pessoa já está prestes a desembarcar. Depois que ela vai embora, a distância, as dificuldades e até a pressão do trabalho acabam esfriando uma relação que tinha tudo para dar certo. Isso acontece principalmente quando o envolvimento é entre tripulantes. Agora, se for na vibe passageiro–tripulante, cantada você vai receber pelo menos uma por semana. 

Mas é importante lembrar que, atualmente, muitas companhias marítimas têm políticas extremamente rígidas em relação ao envolvimento entre hóspedes e tripulantes.Ainda acontece? Sim. Muita gente arrisca. Mas, se for pego, a demissão é praticamente certa.

Eu mesmo já recebi algumas investidas bem diretas de passageiros. O segredo é levar na esportiva, manter o profissionalismo e seguir o baile. Afinal, boas histórias sempre rendem — mas o emprego vem primeiro.

-Entre shows, festas e selfies, como você faz para manter esse corpo escultural que tira fôlego — disciplina de atleta, genética abençoada ou truques secretos de navio? E olhando para o futuro, o palco ainda balança ou novos planos surgem no horizonte?

A dança me deu um grande presente: o contato com a atividade física. Quando eu era mais novo, era extremamente sedentário — tanto que, na minha família, sou o único que pratica esporte.

Sempre fui muito “8 ou 80”: ou treinava todos os dias, ou não treinava nada. Foram anos tentando entender o que realmente funcionava para mim. Hoje, percebi que o simples bem feito traz ótimos resultados: treino musculação cinco vezes por semana e, mais importante ainda, mantenho uma boa alimentação, batendo minha meta diária de proteína.

Eu também tinha um ponto fraco: apesar de treinar bastante, adorava beber em festas. Quando decidi cortar a bebida alcoólica e vi a diferença que isso fez no meu corpo, tudo mudou. Foi um divisor de águas.

Sobre o futuro, já começo a considerar a ideia de me aposentar dos navios nos próximos anos. O desejo de ficar em terra cresce cada vez que volto para casa. Mas eu acredito que tudo tem o seu tempo. E, graças ao apoio da minha família e dos meus amigos, sigo firme — aproveitando cada fase dessa jornada.

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